Post 635 – Tio Chico Informa nº 241 – Mais um excepcional, profundo e cristalino artigo assinado por Quinzinho Liberato demonstrando a subversão e a falácia existente na teoria do OFB – Data: 17/04/19

Tio Chico Informa nº 241 

Mais um excepcional, profundo e cristalino artigo assinado por Quinzinho Liberato demonstrando a subversão e a falácia existente na teoria do OFB.

 

Amigos e amigas do CAFIB e do Fila Brasileiro (FB),

 

Segue abaixo mais um excepcional, profundo e cristalino artigo assinado por Quinzinho Liberato, ex-presidente da Anfibra e que recentemente retornou ao seio

do CAFIB, demonstrando a subversão e a falácia existente na recém inventada teoria do novo tipo de cachorro denominado OFB, que foi postado hoje no Facebook

do Canil Boa Sorte, cujo link é https://www.facebook.com/search/top/?q=Canil%20Boa%20Sorte&epa=SEARCH_BOX .

Quinzinho não tem, como a grande maioria dos criadores,  medo de se comprometer expondo seu pensamento publicamente. Para ele, o FB está acima de amizades. Quinzinho fez questão de mencionar a relação de amizade existente entre ele e o mentor do OFB mas, também, que ele não mistura nem “miscigena” amizade com o trato da Verdade referente ao  Fila Brasileiro e do CAFIB.

Ou seja: amigos, amigos; novas teorias a parte…

Espero que os preguiçosos de plantão e os analfabetos funcionais sejam capazes de ler este excelente artigo e saibam interpreta-lo corretamente.

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Canil Boa Sorte

1 h · 

Projeto OFB – Revolução ou Subversão?

O assunto do momento, no âmbito do Fila Brasileiro, são as querelas acerca do projeto intitulado Original Fila Brasileiro – OFB. Se tornaram comuns os embates acalorados entre os defensores e críticos do referido programa, aliás como tudo tem-se regido atualmente, mormente na Cinofilia, histórica arena de exaltadas discussões.

Em primeiro lugar, gostaria de deixar bem claro que o principal idealizador do OFB, o criador Antonio Carlos Linhares Borges (Canil Caramonã) é antigo amigo pessoal e do Canil Boa Sorte há décadas, cuja criação, inclusive, já foi beneficiada, tempos atrás, com a vinda de exemplar de sangue Caramonã. Exatamente por isso, sinto-me bem à vontade para colocar as ponderações que seguem, sem o risco de serem interpretadas como contencioso pessoal, ou litígio ideológico puro e simplesmente.

O texto abaixo visa refletir meu entendimento do assunto, pelo pouco que já nos foi apresentado, valendo-me da experiência de criador antigo, ex-treinador, árbitro e ex-dirigente de entidade cinófila, na expectativa de auxiliar o público entusiasta do verdadeiro Cão Fila Brasileiro a formar suas convicções quanto ao tema. Com o longo histórico de vilipêndios que a Raça já sofreu creio ser obrigação dos mais experientes ficarem alertas e se disponibilizarem a orientar quanto à diferença de uma bem vinda iniciativa, em contraposição a outra que, mesmo sob a égide da melhor das intenções, venha a prejudicá-la mais uma vez. O Fila Brasileiro é forte e rústico, mas a História já provou que não é imune às agressões daqueles que justamente se propuseram a serem seus “salvadores”. Todo cuidado e atenção é pouco nesses casos.

O Projeto OFB nos propõe, em termos bem resumidos, uma espécie de “redesenho” do Cão Fila Brasileiro, tal e qual o conhecemos hoje em detalhes, sob a alegação de que, ao longo dos anos, e em razão de falha na orientação/julgamentos de clubes e entidades responsáveis pela Raça (com a consequente má seleção dos exemplares), a tipagem fenotípica do FB teria evoluído para ponto não compatível com os exemplares originariamente encontrados nas fazendas do interior do Brasil, animais estes que, como se sabe, serviram de base para os estudos e observações pioneiras de Dr. Paulo Santos Cruz e consequente elaboração do primeiro Padrão Racial no final dos anos 40 do século XX.

De quebra, o Projeto OFB nos apresenta um postulado próprio de origem racial (cães ibéricos) e também se vale de algumas técnicas de manejo e seleção pautadas em metodologias próprias do universo de cães de esporte e trabalho com o auxílio de treinadores profissionais, tudo isso promovido em uma eficiente estratégia de divulgação/marketing. Não é pouca coisa….Poderia-se até em falar em uma revolução de idéias, caso algumas vacuidades do projeto não pusessem foco na tênue, e muitas vezes mascarada, diferença de entendimento entre os verbos revolucionar e subverter .Ambas as expressões podem ser compreendidas por tentativas de mudanças abruptas ou radicais sobre bases anteriormente estabelecidas, contudo a primeira normalmente carrega um simbolismo ou percepção mais pragmática, positiva e inovadora, normalmente voltada ao aperfeiçoamento. Já a segunda é quase sempre associada a uma atitude substancialmente confrontativa, abrasiva, anárquica muitas vezes, sem claros ou concretos propósitos práticos ou, na pior das hipóteses, os mais censuráveis deles.

 Pode-se esclarecer melhor os pontos da seguinte forma, analisando-os por tópicos:

I – ORIGEM RACIAL

Quanto à (nova) proposta de origem racial, faz-se necessário lembrar a virtual impossibilidade de se atribuir um primórdio técnico, histórico, ou minimamente confiável, àquelas Raças caninas não urdidas pelas mãos humanas, mas sim naturalmente caldeadas como foi o caso do Fila Brasileiro, cuja regulamentação descritiva (elaboração do Padrão Racial) deu-se de forma posterior, com a Raça já estabelecida As condições geográficas, culturais e econômicas do interior do Brasil mais antigo (séc XVIII e XIX) não permitiam a existência de uma “cultura cinológica” que nos deixasse rastros ou registros confiáveis. Nas antigas fazendas, cão era simplesmente cão, ou no máximo uma ferramenta de trabalho que, se não prestasse, era substituída por outra, sem maiores preocupações formais. Em razão desse contexto, e da falta de elementos decorrente dele, a origem racial do Fila Brasileiro, em termos definitivos, segue ainda como indeterminada por exclusiva falta de substância que lhe dê a verossimilhança de tese sustentável.

Entende-se até um certo açodamento em atribuir uma origem formal á Raças caninas naturalmente formadas. Alguns consideram relevante “enxergar” em seus cães as características das Raças formadoras, outros vêem uma certa falta de “nobreza” em Raças que não possuam clara indicação de origem geradora e ainda há aqueles que desejam, simples e tão somente, especular sobre o assunto, talvez na tentativa de ganhar adeptos às suas idéias, justificarem seus plantéis ora inadequados ou, quem sabe, elevarem–se à condição de “Patronos” ou “Pais da História”. Não é a primeira vez que se observa isso e, certamente, não será a última.

A questão sobre a admissibilidade de um axioma de origem racial não se restringe ao fato de possuir bases científicas ou empíricas, mas em fazê-lo, ou não, se apresentar sustentado por um protocolo mínimo de experimentação e resultados. Registros históricos, geográficos ou cartoriais acerca da existência e quantidade suficiente de exemplares das raças formadoras, informações sobre a circunscrição, o encadeamento, a proporção e a cronologia dos fatos e dos experimentos, bem como dados acerca de seus resultados. Tudo isso
apresentado dentro de uma narrativa coerente e contextualizada que lhe forneça uma aura crível e que carregue uma possibilidade, por menor que seja, de ser factual. Fora disso, qualquer hipótese passa a habitar o terreno das conjecturas, área na qual todos estão livres para criar as suas, contudo sem dever tomar a liberdade, ou a pretensão, de torná-las universais ou absolutas.

Como se vê, a argumentação apresentada pelo OFB para a origem do Cão Fila Brasileiro não logra alcançar um ponto além de um raciocínio pessoal, podendo considerar-se sua veiculação, na forma em que está, não uma revolução, mas uma subversão às idéias e princípios mais rudimentares da experimentação empírica ou científica, além ao (bom) senso comum que rege qualquer atividade.

 II – DESIGNAÇÃO DO PROJETO.

Um seguinte ponto insólito é a própria intitulação do projeto. Sabe-se muito bem que a designação “Cão Fila Brasileiro” só se fez após a homologação do primeiro Padrão Racial (1951), fruto do trabalho de estudos e prospecções precursoras de Dr. Paulo Santos Cruz, além dos esforços de várias outras pessoas envolvidas. Mesmo por um breve período anterior à esse (final dos anos 30, anos 40) foi provisoriamente denominado como “Fila Nacional”, já em razão de suas primeiras aparições em exposições e os primeiros RI’s (1945), ainda como Raça não homologada..


Também sabe-se muito bem que o termo “Cão Fila” nunca foi usado no ambiente de origem da Raça. Nas antigas fazendas, nos recantos e sertões onde o cão já existia, suas denominações mais comuns eram de Cabeçudo, Boiadeiro (ou Cabeçudo-Boiadeiro), Onceiro, Amarelo Boca Preta e outros, nunca Fila. Pressupõe-se que a alcunha de “Cão de Fila” veio de São Paulo, local para onde eram levados cães adquiridos em MG por fazendeiros paulistas, estes sim os primeiros a darem uma maior projeção cinológica àqueles cães que vinham do interior do Brasil.

A própria denominação do projeto induz, em uma primeira percepção, à sugestão de pureza e originalidade aos animais a ele pertencentes, levando-se a crer que somente seus exemplares sejam verdadeiros, puros e originais Filas Brasileiros, impelindo assim, por analogia direta, todos os demais exemplares existentes a uma espécie de “limbo racial”. Trata-se, sem dúvida, de equívoco e iniquidade de enormes proporções à História, aos fatos e a tantos que, ao longo de décadas, dispensaram esforços, dedicação e investimentos pessoais ao genuíno Cão Fila Brasileiro.

Mais uma vez, por força do atropelo infundado a fatos, elementos e circunstâncias lícitos e já sobejamente comprovados, não há como deixar de se conceber este ponto do Projeto OFB como uma “Subversão” a bases e noções amplamente consagradas , nunca uma “Revolução”.

 III – PARTE TÉCNICA

Em sua proposta técnica, pelo pouco que já se sabe, o OFB transita entre obviedades e novas concepções, contudo claramente travestidas em nova roupagem, conferindo-as feições científicas, exclusivas ou pioneiras.

Situações banais, como as brigas entre filhotes de mesma ninhada, ou corriqueiras, como cadelas paridas reposicionando suas ninhadas em locais mais abrigados, são levadas a público como se raridade fossem. Não são em hipótese alguma!! Raríssimas são as ninhadas onde não existem disputas acirradas entre os irmãos e os cuidados extremados de cadelas com sua prole são tão notórios a ponto de existir área e terminologia específica para isso (Habilidade Materna) em estudos de Zootecnia e Medicina Veterinária.

A atenção do OFB no tocante ao comportamento, caráter e temperamento dos cães (sist,.nervoso, estabilidade, coragem e determinação), em que pese ser sempre bem vinda, não se trata de novidade, já se fazendo presente desde o primeiro Padrão Racial e na pauta da (boa e correta) criação e seleção de Fila Brasileiro desde seus primórdios, bem como é parte fundamental do trabalho do CAFIB, maior, mais atuante e mais antigo clube de preservação do Fila Brasileiro que existe, por intermédio das Análises de Fenótipo e Temperamento – AFT e dos julgamentos de exposições.

Quanto à proposta fenotípica ao plantel, o OFB, pelo que já se manifestou nesse aspecto em imagens , sinaliza basicamente uma regressão, bem acentuada, à tipagem dos ditos “Cães de Fazenda”, de qualidade média baixa, sem o aprimoramento e, principalmente, a seleção que se deu em seguida de seu estabelecimento formal como Raça Pura, melhorados e aperfeiçoados posteriormente pelo próprio Dr Paulo, juntamente com o CAFIB, até mesmo em razão da mestiçagem que se verificou nos anos 70 e 80. Até este ponto, essa abordagem do OFB permite-se aparentar simplesmente como uma inocente imprecisão, um singelo desacerto de rumo, talvez motivado por uma radicalização conceitual quanto ao assunto. O problema, nesse caso, é que essa “possível incorreção” conflita diretamente com narrativa e dados históricos já legitimados e de amplo conhecimento público, não se enxergando muito espaço para os experientes idealizadores do Projeto alegarem desconhecimento deles.

Faz-se imperativo lembrar que, nas matilhas das antigas propriedades rurais, dentre esses cães “de fazenda”, efetivamente poderiam existir Filas autênticos, contudo estes coexistiam com exemplares de outras raças e certamente mestiços de Filas genuínos. Pode-se ter como certo que a principal e, talvez, mais árdua tarefa que Dr Paulo teve, no início de seus trabalhos, logo ao se deparar com esses plantéis, foi a devida identificação dos animais que fossem legítimos Filas daqueles que, mesmo assemelhados, não passavam de frutos de cruzamentos com outras Raças.

Outros pontos da proposta técnica do OFB ainda se vêem pendentes de melhores e maiores esclarecimentos. Alguns deles, pelo pouco que já se apresentaram, envolvem algumas sugestões de modificações estruturais no exemplares. Por exemplo, temos a sinalização para uma figura de cão um pouco mais curto, de tórax menos profundo e algo mais alto, inclusive com a sugestão de angulação escápulo-umeral mais aberta (>90°). Se assim de fato o for, estará criada uma certa desconformidade entre esta idéia e os estudos de dinâmica e morfologia de cães, mormente dirigidos à utilidade natural do Fila Brasileiro, feitos por Dr. Paulo e o CAFIB e publicados no final dos anos 70 e início dos 80. Não se permitem enxergar benefícios em erguer a figura do cão, com a consequente elevação e deslocamento de seu centro de gravidade, tendo este cão a necessidade funcional de possuir agilidade e rapidez em mudanças bruscas de direção de movimentos, além de eficiência no agarrar e imobilização de bovinos. Também não se vislumbra a vantagem na alteração de proporções ou angulações ósseas, naturalmente concebidas à utilidade primordial da Raça.

Os prejuízos mais evidentes que se observam com o aumento do ângulo de ombro (escápulo-umeral), além do virtual maior impacto em sentido vertical à estrutura do animal, seriam uma aparente perda de antepeito e, principalmente, nos reposicionamentos em sentidos mais verticais da escápula e do úmero, os quais podem influir na linha superior do cão (cernelhas mais altas) ou na falta de melhor apoio ao tórax (ponta de cotovelo mais baixa) Quanto aos impactos verticais, sabe-se que toda a constituição do Fila Brasileiro, no tocante a seus membros de apoio, se mostra voltada à minimização dos choques com o solo na andadura. Desde a configuração de pés e almofadas plantares, posição de metacarpos e metatarsos e ossos perfeitamente angulados e unidos por articulações “frouxas”, tudo remete à redução e melhor absorção das batidas no chão durante a movimentação, ainda mais por se tratarem de animais que facilmente superam os 50 Kg e que, por dever de função primordial, devem ter a capacidade de se deslocar por grandes distâncias. Estas diferenças, que para alguns podem parecer pequenas, podem até não se fazer prejudiciais em curto trote em pista de exposição, mas poderão ser determinantes em uma jornada de 20 km ou mais, situação nada inusual para exemplares de propriedades rurais, o ambiente de origem da Raça, que ainda trabalham percorrendo longas distância e lidando com o gado.

No tocante ao aproveitamento de profissionais de adestramento no projeto, não obstante existirem excelentes especialistas na área, torna-se ponto controverso na razão em que a imensa maioria desses técnicos têm suas respectivas formações, métodos e conceituações firmados com base em outras Raças caninas, mais afeitas ao aproveitamento como cães de esporte ou trabalho específico. O Fila Brasileiro está fora desse universo e isso sempre se apresentou como causa de muita divergência, fruto de desinformação. O Fila Brasileiro pleno nasce pronto, e assim o é por intermédio do (bom) trabalho genético e da correta orientação à seleção. É até muito compreensível que adestradores e treinadores profissionais estranhem essa premissa, pois seu juízo de cão pleno passa por diversas etapas de testes e treinamentos até a avaliação final, pois assim o protocolo técnico daquelas raças o requer. Não no caso do Fila Brasileiro, onde a eventual inserção do item “adestrabilidade” não é desejada, nem necessária de forma alguma à perfeita seleção e criação da Raça.

Fechando-se a parte técnica, e vendo-se com enorme preocupação, o OFB apresenta, mesmo que timidamente, uma indicação que poderá considerar a utilização de cães de pelagem desproporcionalmente tigrada (formando manchas), ou até mesmo os pretos, chamados no projeto de “melânicos”.

Sobre isso, entende-se obrigatório recordar que, neste ano de 2019, completam-se exatas 4 décadas de publicação do artigo intitulado “Não Existe Fila Preto”, de autoria de Dr. Paulo Santos Cruz, constante do Boletim do CAFIB de n° 7. Nessa matéria, põe-se fim a quaisquer dúvidas sobre o tema, inclusive aquelas que o próprio Dr. Paulo havia anteriormente suscitado em seu início de contatos, trabalhos e pesquisas com a Raça, as quais sempre foram malícia e deturpadamente utilizadas pelos defensores de cães pretos e mestiços, sem contudo conseguirem êxito na confirmação do inegável……Não Existe Fila Preto.. Nesses 40 anos, absolutamente tudo que que apurou, em termos de estudos, análises técnicas, pesquisas e em experimentos acumulados confirma, de forma cabal, essa assertiva.

Abrirem-se flancos e possibilidades à essa premissa (cães manchados e pretos) constitui-se em uma injustificável e insensata atitude, somente comparável à do antigo BKC com seu famigerado “Livro de Espera”, onde registros de cães mestiços eram compilados no aguardo de futura homologação. Aventar-se, mesmo hipoteticamente, esse caminho é desconsiderar, ou subverter, todo o trabalho realizado por Dr Paulo e o CAFIB, que não foi pouco nem fácil, mas que resultou no resgate da Raça conforme hoje se reconhece e admira-se em todo o planeta.

 IV – CONCLUSÃO

Em uma primeira e rasa visão, o Projeto OFB pode até se assemelhar a uma auspiciosa iniciativa de uma “necessária revisão” à Raça Fila Brasileiro, segundo seu entendimento. Noentanto, a realidade se mostra diferente à medida em que se avalia, com maior profundidade, as propostas que são apresentadas em “fatias” que, mais do que um cuidado didático ou assertivo, delineiam-se em uma boa e bem montada estratégia de publicidade.

O emprego midiático de exemplos comparativos dúbios, imprecisos ou descontextualizados sobre cães, na tipagem proposta pelo OFB, premiados em antigas exposições (em especial as do CAFIB) remete a severo erro conceitual. Se realmente o foram, com certeza tratou-se de lamentável, mas possível, incorreção que, como se vê na verdade dos fatos, permaneceram na esfera da exceção, do “ponto fora da curva”, jamais das regras abalizadas de orientação, seleção ou julgamentos.  Se na verdade ocorreram, se constituíram em criticável exceção, jamais se fizeram como regra.

Estranha-se também que um projeto alegadamente de fundamento técnico e científico, quando confrontado ao discordante, mostre tantas dificuldades na refutação dos argumentos, servindo-se do expediente da apresentação de alegações diversas às lhe colocadas, criando assim dificuldades ou desorientação à qualquer tratativa que se proponha à formação de um raciocínio lógico. Tornou-se usual nas manifestações do OFB a sugestão de que a esmagadora maioria de técnicos, criadores e aficionados da Raça foram acometidos, há anos, por uma espécie de miopia visual e cognitiva em relação à seus cães (e à Raça propriamente dita), não observando as claras e nítidas alterações fenotípicas que, segundo o OFB, somente são percebidas pelos adeptos ao Projeto. Não creio que isso se trata de pressuposto de ordem técnica ou científica, resvalando mais a um messianismo calcado somente em concepções pessoais.

As vicissitudes apontadas no texto acima, algumas de perigosa e negativa relevância, indicam pontos falhos, incoerentes e conflitantes com a realidade e fatos já há muito estabelecidos. Os atropelos do projeto, as “pontas soltas”, a indução ao falso conceito de “virgindade racial” e ao ‘tudo é possível, a princípio” conferem ao OFB uma silhueta amorfa e desfocada. Sob um olhar mais crítico e analítico do que já foi apresentado, pode-se afirmar que o OFB ainda se mostra como uma bom e bem montado enredo, contudo falacioso. Uma paisagem até bem elaborada, mas ilusória de essência. A dúvida que se segue é, como sempre, a motivação, o porquê de tal iniciativa.

Na tentativa de responder ao questionamento acima faz-se necessário pontuar, aos menos “conectados”, que de tempos para cá houve o surgimento, através das mídias sociais (novo “Campo do Saber da Cinofilia”), de um grupo de pessoas que se manifestam vigorosamente contra os supostos excessos ou exageros de cães premiados em exposições, ou da criação em geral, mesmo em se tratando de entidades preservacionistas tradicionais tidas como sérias e rigorosas, como o CAFIB. Os pontos que unem este grupo são que nunca esclarecem devidamente o que consideram “exageros” ou “excessos” , se posicionam em primeira instância contra “tudo isso que está aí” sem contudo oferecer colaboração proativa às entidades já estabelecidas e se mostram tão atuantes nas mídias digitais quanto inexperientes no mundo do Fila Brasileiro. Não se observa sequer um único criador, árbitro ou dirigente experiente compartilhando tais princípios. Criou-se uma espécie de “nicho de mercado”, robustecido pela presença de entusiastas leigos, criadores de limitada experiência prática e profissionais de treinamento canino, no qual o OFB surge como a panacéia que recolocará o Fila Brasileiro em seus devidos trilhos originais.

Revolução ou subversão? Quimeras ou verdades? O trabalho de Dr. Paulo e do CAFIB ou a revisão do que já foi feito? Oportunismo de mercado ou personalismo? Nada disso interessa ao CAFIB, seus associados e a todos que espelham suas criações em sua filosofia solidificada há mais de 40 anos, por seus próprios méritos . Fio-me na crença que preservar a Raça Fila Brasileiro deva ser, entre outras coisas, possuir e praticar, como valor inegociável, um profundo respeito à sua História legitimada e aos fatos que, verdadeiramente, a formaram. Subvertê-los, seguramente, é jogar contra.

Joaquim Liberato Barroso / Titular do Canil Boa Sorte

Abraços, Chico Peltier.

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