Post nº 78 – Tio Chico Informa nº 29 – Sobre o Temperamento do Fila Brasileiro II – O Padrão do Fila traduzido pela FCI-Belga versus o Padrão do Fila-CBKC – Enviado em 14-03-13

Tio Chico Informa nº 29

Sobre o Temperamento do Fila Brasileiro II – O Padrão do Fila traduzido pela FCI-Belga versus o Padrão do Fila-CBKC

Nota: visto que FCI-Belga e CBKC são muito mencionados neste artigo, este email foi encaminhado em inglês primeiramente para estes dois clubes.

Amigos e amigas,

Este meu segundo artigo sobre o Temperamento do Fila procura complementar o meu post nº 32 — Tio Chico Informa nº 15 — que se encontra no meu blog no link https://filabrasileirochicopeltierblog.wordpress.com/2012/08/21/post-no-32-tio-chico-informa-no-15-enviado-em-200812/. Neste artigo defendi a tese de que muitos cães com pedigree de Fila Brasileiro não têm o temperamento típico e característico da Raça Fila, pois muitos destes cães ainda sofrem da miscigenação com cães de outras Raças, notadamente o Mastiff Inglês, Mastin Napolitano e Great Dane (Dinamarquês). Como todos nós sabemos, estas três Raças, que foram as mais utilizadas na miscigenação com o Fila, tem um temperamento e comportamento bem mais dócil do que o Fila e aceitam estranhos. Logo, defendo a tese de que não se pode esperar de todos os cães com pedigree de Fila que sofrem desta miscigenação, que possuam a característica típica do Fila, no que diz respeito principalmente a “ojeriza” a estranhos, a qual desejo abordar com mais ênfase neste artigo.

Sendo assim, defendo que a “ojeriza”, esta característica típica e nata da Raça Fila, também seja preservada e devidamente cuidada na criação do Fila-CBKC, preconizando a volta dos TT`s em todas as suas exposições. Aliás, como praticamos com sucesso nos últimos CAFIB 35 anos.

Muito se comenta sobre o Temperamento típico, único, nato, tradicional e espontâneo de “ojeriza” que se observa nos cães de Fila Puros com relação aos estranhos. Penso que seja a única Raça canina no mundo que não precisa e não deve ser adestrada e treinada, salvo para conceitos básicos de comportamento educacional, mas não para ataque ou os chamados TT`s.

Sendo assim, resolvi pesquisar o que determina os Padrões empregados pelo CAFIB, pelo então BKC, pelo CBKC e nas traduções usadas pela FCI-Belga para analisar e avaliar o Temperamento da Raça Fila para com estranhos:

1. O Padrão do Fila segundo o CAFIB determina desde 1978:

“Dotado de coragem, determinação e valentia notáveis. Não oculta sua ojeriza a estranhos, nem sua tradicional meiguice, obediência e fidelidade aos donos e seus familiares. Consequentemente é, nas cidades, inexcedível guarda de propriedades… Como resultado de seu temperamento, nas exposições não permite ser tocado pelo juiz (um estranho) e, se o atacar, não deve tal reação ser considerada falta, mas apenas confirmação de seu temperamento. Nas provas de temperamento, obrigatórias nas exposições, após doze meses de idade, seu ataque deve ser em diagonal ascendente, à frente do apresentador, e sem deste revelar dependência”.

Conclusão: define de forma clara o comportamento do Fila para com estranhos, que é de “ojeriza”. Menciona “guarda de propriedades” e, ainda, que “nas exposições não permite ser tocado pelo juiz”. Alem disto menciona a obrigatoriedade de “provas de temperamento”.

2. O Padrão do Fila segundo o então BKC determinava na sua primeira versão:

“De notável valentia e coragem; caracteriza-se pela ojeriza a estranhos, sendo, no entanto, de tradicional fidelidade ao dono e familiares,… Como resultado do seu temperamento, muitas vezes o Fila ataca o juiz e, via de regra, não permite que este o toque. Tal atitude apenas confirma suas características de temperamento, não devendo ser considerada como falta”.

Conclusão: define de forma clara “ojeriza a estranhos” e, ainda, permite que o Fila ataque o juiz.

3. O Padrão do Fila segundo o CBKC-FCI nº 255 datado de 10/03/2.004 em vigor determina:

3.1. Na versão em português:

“Caracteriza-se pela aversão a estranhos… É fiel à guarda da propriedade…”.

Conclusão: foi substituída a forte, firme e indiscutível característica de “ojeriza” por “aversão”. Cabe ressaltar que em alguns dicionários “aversão” é apresentada como sinônimo de “ojeriza”, apesar da conotação bem mais suave que encontramos na palavra “aversão”.

3.2. Na versão em inglês (02/04/2004):

“One of its characteristics is its aloofness towards strangers (indiferençaa estranhos)An unsurpassed guardian of properties…”.

Conclusão: curiosa e estranhamente a típica e famosa “aversão a estranhos” do Padrão original, característica nata e tradicionalmente encontrada na Raça Fila, foi traduzida neste Padrão da FCI em inglês para uma suave e dócil indiferença a estranhos”…

3.3. Na versão em espanhol (15/06/2004):

“Una de sus características es ser desconfiado con los extraños… Es un extraordinario guardían de las propiedades,…”

Conclusão: curiosa e estranhamente a típica e famosa “aversão a estranhos” do Padrão original, característica nata e tradicionalmente encontrada na Raça Fila, foi traduzida neste Padrão da FCI em espanhol para uma suave e dócil desconfiado com estranhos”…

 

                                          Bem, meus amigos, eu realmente não sei o que teria levado uma pessoa renomada e com altos conhecimentos de cinofilia como Raymond Triquet, também conhecida como o Pai da Raça Dogue de Bordeaux, um dos melhores tradutores da FCI, a cometer um falha tão grave. Afinal, como seria possível alguém traduzir a palavra “aversão” por “indiferença”? Digo mais: se eu fosse criador do Fila-CBKC, sócio da SPFB e, mais ainda, dirigente da SPFB eu questionaria imediatamente o CBKC. E se o CBKC não me respondesse, o que é muito provável, questionaria diretamente a própria FCI-Belga sobre este incrível equívoco de tradução. Ou, alternativamente, caso haja, que a SPFB ou seus dirigentes postem no site da SPFB a explicação para esta curiosa tradução.

Consultando alguns amigos europeus, recebi uma explicação lógica, mas que não sei se é a verdadeira para esta, digamos, “adaptação no Padrão original do Fila para as necessidades europeias”. Ou seja, com o advento da opção da FCI-Belga pela socialização dos cães que possuem um temperamento mais forte, principalmente visando sua apresentação em shows e exposições, principalmente na Europa Ocidental, base desta FCI-Belga, o Padrão do “Fila-europeu” sofreu infelizmente uma, digamos, adaptação. Ou, ainda: sofreu o famoso jeitinho europeu ou, melhor dizendo, sofreu o “jeitinho belga”… (rsrsrs). Traduzindo “aversão” por simplesmente “indiferença e desconfiança” a FCI-Belga transformou em extremamente dócil o temperamento da Raça Fila aos seus interesses e necessidades para a participação de Filas em shows e exposições. Se esta explicação for procedente, a FCI-Belga não se importou em quebrar, pelo menos no Padrão, o temperamento típico e único de uma Raça Canina estrangeira.

Se esta, digamos, “adaptação”, foi feita seguindo os regulamentos da FCI-Belga e do CBKC e, ainda, com o conhecimento e concentimento do CBKC, não sei. Certamente meu blog esta a disposição de eventuais esclarecimentos que podem ser prestados por Hans Muller, presidente da FCI-Belga e por Sergio de Castro, presidente do CBKC, assim como por Ricardo Simões, Presidente do Conselho de Árbitros do CBKC, bem como pelo famoso criador e tradutor da FCI-Belga Raymond Triquet. Entretanto, custo a crer que um clube cinófilo estrangeiro como a FCI-Belga ou mesmo o CBKC, ambos sem nenhum vínculo com o Governo Brasileiro, nem mesmo com o Ministério da Agricultura do Brasil, tenham algum poder para modificar as características naturais e típicas de um animal brasileiro.

Ou seja, eu desejaria que alguém me explicasse por meio de que instrumento legal e por que motivos válidos e plausíveis o temperamento único do Cão de Fila Brasileiro, que foi tão bem definido pelo Mestre de Criação do CAFIB e Pai da Raça Fila, Dr. Paulo Santos Cruz, com a simples escolha da palavra — “ojeriza” – modificado mais tarde pelo CBKC para “aversão”, poderia ter sido tão modificado, ou melhor, de fato suprimido, no atual Padrão do Fila segundo a FCI-Belga em suas versões em inglês e espanhol, já que “indiferença e desconfiançaabsolutamente nada têm a ver comaversão”.

Ou seja, a principal pergunta que faço para voces é: pode um simples clube não oficial como o CBKC, que não representa o Estado Brasileiro, que até por duas vezes perdeu suas prerrogativas junto ao Ministério de Agricultura do Brasil (vide em http://www.filabrasileirochicopeltier.com.br/novos/30_79/materia.html  ) e um clube internacional como a FCI-Belga, que também não é oficial, nem tampouco exclusivo, visto que existem pelo menos mais três clubes mundiais que registram cães de forma independente (The Kennel na Inglaterra, AKC no USA e outro clube também chamado de FCI, mas que é baseado na Espanha), modificar o temperamento nato de uma Raça canina brasileira?

Mas, por favor meus amigos, com o intuito de fazer voces refletirem sobre este assunto tão importante que diz respeito a uma característica única encontrada na Raça Fila, eu desejaria fazer ainda mais algumas perguntas para voces e, principalmente, para o CBKC e a FCI-Belga:

1. Voces acreditam que este equívoco trata-se apenas de um grave erro de tradução, o qual deve ser imediatamente corrigido?

2. Voces acham que um clube estrangeiro como a FCI-Belga teria o poder de alterar uma característica tão típica, marcante, única, natural e tradicional de uma Raça animal natural de outro país como é o caso do Fila Brasileiro?

3. Será que o CBKC compactuou com esta tradução equivocada ou nunca notou estas modificações, adaptações ou erro grave de tradução?

4. O CBKC, não sendo um órgão reconhecido e conveniado com o Governo Brasileiro e sem poderes para representar a Raça Fila, teria autoridade para modificar ou avalizar a alteração feita pela FCI-Belga na tradução do Padrão do Fila Brasileiro?

5. Os criadores e os clubes brasileiros de Fila filiados ao CBKC, como a SPFB, foram consultados sobre esta adaptação e/ou alteração no Padrão do Fila ?

6. Qual o pensamento dos antigos e novos dirigentes da SPFB sobre esta tradução, modificação e adaptação ?

7. A SPFB foi consultada pelo CBKC em 2.004 sobre estas mudanças no Padrão do Fila feitas pela FCI-Belga?

8. Voces preferem o Temperamento tradicional do Fila ou sua atual adaptação e modificação às necessidades europeias?

9. Um Fila sem a tradicional “ojeriza” ou até mesmo, “aversão”, pode ser considerado um Puro exemplar da Raça Fila Brasileiro ou não?

10. O que vale mais: o Padrão original no idioma do país de origem de uma Raça canina ou suas traduções para outros idiomas, mesmo que com tradução equivocada e com grave erro?

11. Se os Padrões tem traduções diferentes, qual o Padrão que vale? O Padrão elaborado pelo país natural da Raça em questão ou a tradução nos idiomas oficiais da FCI-Belga?

12. A docilidade empregada na tradução que, equivocada ou intencionalmente, atenua e reprime o temperamento típico do Fila Brasileiro beneficia os Filas de temperamento Puro ou os “filas-mestiços” de temperamento dócil, semelhante aos das três Raças utilizadas na mestiçagem e acima mencionadas?

Gostaria muito que voces me ajudassem a responder as perguntas acima. Mas, por favor, deixando de lado a paixão dos criadores e as conotações clubísticas. O Temperamento do Fila Puro é um assunto muito importante para todos os Filas, criadores, clubes, dirigentes e juízes. A minha proposta e objetivo com este artigo é tentar entender o que levou a FCI-Belga a modificar completamente o temperamento típico e nato do Cão de Fila Brasileiro. E descobrir se o CBKC participou desta modificação ou dela até agora desconhece.

Certamente eu conheço o que pensam todos os membros do CAFIB sobre o temperamento do Fila, principalmente com relação aos estranhos, que é o simples sentimento espontâneo de “ojeriza”, até porque os cafibeanos seguem o Padrão CAFIB. Mas, realmente, não sei o que pensam sobre este assunto a maioria dos criadores do Fila-CBKC, bem como seus dirigentes. Não nos esquecendo dos criadores do Fila-CBKC da Europa. Gostaria muito de conhecer este pensamento.

Mas certamente devo terminar este artigo com uma magistral colocação e pergunta do fundador, criador, juiz e ex-presidente do CAFIB, Airton Campbell:

— “Cão de Fila que tem apenas “indiferençae desconfiança” e não a tradicional “ojeriza” ou “aversão” a estranhos, certamente não tem o característico temperamento da Raça Fila, mas sim, o temperamento de um gato. Isto mesmo: os gatos é que são tradicionalmente indiferentes e desconfiados para com estranhos… Será que os criadores do Fila-CBKC vão aceitar e seguir este Padrão equivocado?”.

Como acredito que esta modificação consciente ou grave erro de tradução, surpreendente vindo de um tradutor sério e renomado como Raymond Triquet é um fato muito grave, espero que os criadores do Fila-CBKC, a SPFB e, principalmente, o CBKC e a FCI-Belga não se omitirão e certamente nos ajudarão a esclarecer este assunto com tantas dúvidas pendentes.

Nota: como sempre fiz com todos os emails que enviei no passado, este email também foi encaminhado primeiramente para os responsáveis pela FCI e pelo CBKC.

Esperando que minhas dúvidas sejam esclarecidas, desejo a todos um bom dia. Chico Peltier.

 

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